Vendi o meu ap, estou feliz...
Ah! Mas eu vou sentir falta...
Dos sabiás-laranjeira do jardim, que nem levantam vôo quando vêem a gente, pois não conhecem medo...
Dos miquinhos que não deixam nem um sapotizinho inteiro nos sapotizeiros...
Das andorinhas que vêm beber no espelho d’ água da piscina...
Do canto dos sanhaços manhã cedinho...
Vou sentir falta, tenho certeza, do silêncio das noites do Pé Pequeno, de suas ruas ainda de casario...
Vou sentir falta dos tantos gatinhos que vagabundeiam sozinhos, até mesmo da Belinha, aquela safadinha dissimulada que me mordeu...
Vou (ah, como vou!) sentir falta dos meus lindos bebezinhos, que riem pra mim e me mandam beijinhos, com seus olhos de cristal e inocência, e também das suas babás boazinhas...
Vou ter saudades do velhinho que leva o basset-hound pra passear, sempre vestido de camisetas caninas bicolores...
Ah! Vou, vou sentir falta das mangueiras carregadinhas no verão...
E dos porteiros sorridentes...
Mas é da vida, toda mudança...
A minha casa, mais uma vez eu me digo, é o lugar onde eu moro com quem amo.
Se não houvesse a fresta aberta, a mudança não seria possível, e é esta que nos permite crescimento...
É o potencial de desapego ao presente que nos permitirá uma vida ainda mais feliz.
O passado, muitas vezes, trazemos ainda dentro de nós, mas ele não é mais...
E o presente é fugaz como um milésimo de segundo...
Enquanto expiramos...
Já foi...
Não reter o ar...
O vácuo aberto pelo ar que sai, me permite inspirar de novo... Vida nova!
