A
casa fica ao lado de um pardieiro; é um
cortiço.
Ali moram várias pessoas
grossas, feias, brutalizadas pelas
dificuldades.
A
casa de que falo é a casa das ninfas que agora se mudaram
das florestas, sob o calor das queimadas.
As ninfas são seres diáfanos, peles de seda
de todos os orientes, transparentes e pequenas.
Asas como as das
libélulas...
Andam desiludidas as meninas ninfas, deslocadas neste
mundo matemático, estatístico,
cibernético.
Cuidam dos jardins e vasos de plantas nas
cidades...
Nos campos, intoxicam-se com adubos
químicos e inseticidas...
Nas
ruas escondem-se sob as árvores, das luzes de néon,
dos postes, dos amantes tardios e bêbedos porventura ainda
insistentes...
Mas na casa das ninfas elas
reinam...
Lá, entre as paredes de orvalho dos
quatro cantos do mundo, elas cultivam nenúfares lilases e de
todas as cores, cuidam dos amores-perfeitos violáceos, das
violetas africanas e de quantas flores o mundo
tenha.
A casa das ninfas tem árvores de todos
os frutos, douradas árvores de inverno, imensas
sequóias seculares...
Aquilo é a sementeira do mundo, a
esperança de que tudo
permaneça.
Nas primaveras as ninfas saem aos bandos
(lindos bandos de mínimas mulherzinhas transparentes,
tão brancas, tão luminosas!), espalhando o
pólen, dando força às plantas debilitadas,
fazendo com que mui lentamente abandonem a
hibernação, este hábito
multi-milenar.
E a gente sente a partir de
então uma força, um poder que se espalha e só
explode no verão dos trópicos, quando as frutas
recendem seus cheiros, os insetos zunem por todos os lados e o
calor se espalha pela terra, só conhecendo fim no
próximo inverno.
E então as ninfas estarão mais
uma vez trabalhando em silêncio, com os faunos e os gnomos,
no fundo de densas florestas
penumbrosas...
Estarão preparando tudo: sementes,
ventos, insetos, pólen, reservando-os em grandes
tonéis de madeira e de pedra sem
fundo...
Estarão esperando a ocasião certa para que
volte a alegria, para que reine a paz, para que a terra seja de
novo o paraíso...
Por alguns segundos.