Sapo jardineiro  escrito em segunda 15 dezembro 2008 22:59

O sapo sorridente no jardim lacustre,

Me espia...

Entre folhinhas, me vê.

Na sua labuta de sapo jardineiro,

Me lembra Cecília,

A querida,

A doce,

A amada,

A poetisa da linguagem fluida,

Aquática.

Aquática Cecília,

Me espiando entre o verde, o sapo e o jardim.

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A vida tem timecold  escrito em sexta 12 setembro 2008 21:07

A vida tem time cold.

Você vive e nem sente,

Você corta, cola e nem viu.

Enquanto os meus cabelos embranquecem,

Enquanto o mundo cultua,

Estica,

Encrespa,

Raspa,

Pinta os cabelos,

Tudo muda.

Tudo passa.

Coisas que ficam inacabadas...

O roteiro eu vou alterando,

Lendo o que me disseram.

Negando o que não quero.

Perdoando e sendo perdoada.

Fazer de todo limão

Um suco de lima.

That’s the place.

That’s the time.

Toda impermanência

Em algum lugar permanece.

Obs: A imagem foi copiada do site unprofound.com

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Cada pessoa é a sua própria palavra neste mundo.  escrito em terça 27 maio 2008 17:42

Cada pessoa é a sua própria palavra neste mundo.

Cada ser é uma expressão única, inédita e exclusiva D’Aquele que É.

Cada ser vivente é um SOM (palavra de Kaká Werá).

Por isso a resistência de certas culturas em aceitar o registro escrito ou imagético.

Porque cada pessoa é só ela, e só ela pode expressar o seu pensamento,  o seu SER, mesmo assim, parcialmente.

Nunca nos mostramos totalmente ao outro, porque seria impossível a nós e ao outro, perceber-nos integralmente.

A mania de registrar, de documentar, vício humano, de alguma forma nos rouba a alma, pois nos leva a parar o fluxo para tentar retê-lo, como quem retém o ar enquanto respira.

Algumas tribos diziam que a fotografia “roubava a alma da pessoa fotografada”.Eles provavelmente sentiram isso, esta tentativa de conter o que não pode ser contido.

A vida é fluida, a alma é fluida.Viver é...viver...

A gente escreve, fotografa, filma, para fingir que tem o momento nas mãos.

Não tem não.

Platão sabia.

Heráclito também.

Os índios sabem...

A foto vai trazer uma sensação parecida, vai lembrar o momento vivido, mas não, nunca, repeti-lo.

Laisser passer...

O homem teima em querer segurar o tempo, mas o tempo é sopro, e o sopro vem de Deus, vem e vai – não se pode segurar.

Você não pode segurar o que não é seu.

Agora...Nenhuma destas considerações invalida a escrita, a fotografia, ou qualquer mídia, ou qualquer tentativa de documentar o que se passa, em qualquer esfera que se passe.

Principalmente se e quando, escrever, filmar, fotografar sejam pra gente como que parte do nosso viver...

Acontece! A gente pode criar universos paralelos, através das Artes, da Literatura, do Teatro, do Cinema...

E gostar de viver um pouco neles...

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Vendi meu ap.  escrito em sexta 16 maio 2008 23:34

 

 

Vendi o meu ap, estou feliz...

Ah! Mas eu vou sentir falta...

Dos sabiás-laranjeira do jardim, que nem levantam vôo quando vêem  a gente, pois não conhecem medo...

Dos miquinhos que não deixam nem um sapotizinho inteiro nos sapotizeiros...

Das andorinhas que vêm beber no espelho d’ água da piscina...

Do canto dos sanhaços manhã cedinho...

Vou sentir falta, tenho certeza, do silêncio das noites do Pé Pequeno, de suas ruas ainda de casario...

Vou sentir falta dos tantos gatinhos que vagabundeiam sozinhos, até mesmo da Belinha, aquela safadinha dissimulada que me mordeu...

Vou (ah, como vou!) sentir falta dos meus lindos bebezinhos, que riem pra mim e me mandam beijinhos, com seus olhos de cristal e inocência, e também das suas babás boazinhas...

Vou ter saudades do velhinho que leva o basset-hound pra passear, sempre vestido de camisetas caninas bicolores...

Ah! Vou, vou sentir falta das mangueiras carregadinhas no verão...

E dos porteiros sorridentes...

Mas é da vida, toda mudança...

A minha casa, mais uma vez eu me digo, é o lugar onde eu moro com quem amo.

Se não houvesse a fresta aberta, a mudança não seria possível, e é esta que nos permite crescimento...

É o potencial de desapego ao presente que nos permitirá uma vida ainda mais feliz.

O passado, muitas vezes, trazemos ainda dentro de nós, mas ele não é mais...

E o presente é fugaz como um milésimo de segundo...

Enquanto expiramos...

Já foi...

Não reter o ar...

O vácuo aberto pelo ar que sai, me permite inspirar de novo... Vida nova!

 

 

 

 

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A Casa das Ninfas  escrito em quinta 07 fevereiro 2008 01:39

      A casa fica ao lado de um pardieiro; é um cortiço.

     Ali moram várias pessoas grossas, feias, brutalizadas pelas dificuldades.    

     A casa de que falo é a casa das ninfas que agora se mudaram das florestas, sob o calor das queimadas.

     As ninfas são seres diáfanos, peles de seda de todos os orientes, transparentes e pequenas.

     Asas como as das libélulas...    

     Andam desiludidas as meninas ninfas, deslocadas neste mundo matemático, estatístico, cibernético.    

     Cuidam dos jardins e vasos de plantas nas cidades...    

      Nos campos, intoxicam-se com adubos químicos e inseticidas...    

     Nas ruas escondem-se sob as árvores, das luzes de néon, dos postes, dos amantes tardios e bêbedos porventura ainda insistentes...    

     Mas na casa das ninfas elas reinam...      

     Lá, entre as paredes de orvalho dos quatro cantos do mundo, elas cultivam nenúfares lilases e de todas as cores, cuidam dos amores-perfeitos violáceos, das violetas africanas e de quantas flores o mundo tenha.     

     A casa das ninfas tem árvores de todos os frutos, douradas árvores de inverno, imensas sequóias seculares...   

     Aquilo é a sementeira do mundo, a esperança de que tudo permaneça.   

     Nas primaveras as ninfas saem aos bandos (lindos bandos de mínimas mulherzinhas transparentes, tão brancas, tão luminosas!), espalhando o pólen, dando força às plantas debilitadas, fazendo com que mui lentamente abandonem a hibernação, este hábito multi-milenar.  

      E a gente sente a partir de então uma força, um poder que se espalha e só explode no verão dos trópicos, quando as frutas recendem seus cheiros, os insetos zunem por todos os lados e o calor se espalha pela terra, só conhecendo fim no próximo inverno.

     E então as ninfas estarão mais uma vez trabalhando em silêncio, com os faunos e os gnomos, no fundo de densas florestas penumbrosas...   

     Estarão preparando tudo: sementes, ventos, insetos, pólen, reservando-os em grandes tonéis de madeira e de pedra sem fundo...  

     Estarão esperando a ocasião certa para que volte a alegria, para que reine a paz, para que a terra seja de novo o paraíso...

     Por alguns segundos.                                

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